Tempo atrás do Tempo

Na vida tudo é rio!

Vou trilhando labirintos impermanentes, numa solidão que é companhia, inventando verdades e poesia.

Desabafos mudos surgem em noites de azul negro, e as palavras brotam da alma, como as gotas de orvalho em manhãs claras.

Tudo me desafia nesta inquietude permanente de vazio a extravasar de excesso. E neste desfiar do tempo, a querer elevar a palavra esperança e a ver que o mundo não a alcança.

As ideias fervilham e transformam-se em devaneios poéticos, que aportam em cais noturnos, trilhando luzes e trevas, na miragem do auge do dia.

Mas a poesia servida no azul do mar, no amor cantado ou na borboleta colorida, é o que nos permite a indizível alegria de viver.

Porque o poema tudo abraça e tudo cura!

(Manuela Resendes)

O lugar que é “casa”

Por vezes temos de cortar as raízes abruptamente, deixando para trás o aconchego de Paz uterina para ousarmos descortinar o mundo.

Essa inquietante necessidade de ver para além do óbvio obriga a atravessar mares e rios, pontes e túneis, num longo e sinuoso percurso, mas em que nos podemos elevar, construir e desfrutar.

E quando a caminhada nos faz perder o norte e as certezas, temos de encontrar o fio que nos conduza a esse lugar harmonioso, onde o coração descansa e o enriquecimento dos contrários nos dá o necessário alento para prosseguir.

Esta é a aprendizagem da vida, feita de perdas e dádivas numa subtil proporção, para quem decide fazer da caminhada um compromisso de liberdade e amadurecimento, percebendo que o itinerário também é feito de muitos tempos cheios de pequenos nadas, mas mantendo a fé de que um pequeno fragmento de vida nos possa catapultar de novo para outros patamares de realização.

E nos momentos de maiores tempestades, a “casa” é o nosso maior e melhor refúgio, em qualquer latitude do mundo!

(Manuela Resendes)

A poesia salva!

Passo no meio da multidão e sinto uma estranheza, uma solidão funda sem fundo, um reflexo de luz impura…

Ensaio então o meu resgate, permitindo-me saborear o infinito, descansar o olhar em azuis mar e sentir o aroma da esperança.

Fui de viagem ao passado, quando todo o tempo era meu e todos os sonhos eram possíveis, sonhados em catadupa e guardados num pedaço de lua.

Tantas vezes a vida foi adiada, numa espera de luz bruxuleante, que me permitisse ver, para além da cegueira do mundo. E agora olho os fantasmas que ocupam sombras frias, de ruelas onde ecoavam gargalhadas e que já foram passagens para o futuro.

A minha alma inquieta com as dores do mundo precisa de temperar os dias de lembranças felizes e palavras sonâmbulas, onde invento uma alegria suave donde brotem amanheceres de Paz.

Mas é na poesia que me regenero, em dias de ventos largos, levando-me ao cume da montanha onde avisto o infinito e fantasio a realidade, serenando assim a minha dor, porque “o poema ensina a cair”.

(Manuela Resendes)

Embalo

Sinto o embalo da vida nas doces auroras, no sol a entrar janela dentro e até no barco que avisto no horizonte.

Sinto-me a viajar, mesmo sem sair do mesmo sítio, por geografias desconhecidas e latitudes mais ou menos distantes. Não quero acordar o silêncio porque o mundo entra pelos meus olhos, mas só vejo o vazio.

Os pássaro, a lua e até as estrelas cintilantes, contam-me histórias de um mundo de além. Espreito a claridade, e procuro o caminho para a esperança no leito do rio, nas ondas do mar e até no refrão de uma canção.

Sigo a voz de um poema que é luz suave, que mesmo que possa não existir na natureza sobrevive no sonho.

Mas, Mãe, deixaste-me o maior legado, que foi o de também ser mãe, ser luz suave e amor incondicional. No fundo, assim se prolongam os laços que a vida tece.

Feliz Dia da Mãe.

(Manuela Resendes)

Saudade

Hoje pedi ao Sol para me resgatar da escuridão e à Lua para me falar daqueles que nos levam o tempo e pedaços de vida.

Voltei à casa fechada, que me pareceu nunca ter sido habitada, com o seu ventre prenhe de silêncio.

Vesti-me de terra e cobri-me de folhas, trepando muros e pedras, e atravessei a ribeira para o outro lado. Sopro o teu nome e ouço o eco misturado com o som do coaxar das rãs e da água a correr indiferente e sem pressa.

Vou, assim, transpondo o imediato e sentindo o indizível, na simplicidade deste cenário, que me transporta para a infinita complexidade da vida.

Sinto passos antigos, de quem nunca chega, e ouço risos de crianças que já não brincam, enquanto o dia se escoa lentamente.

E é neste fio de vida, que atravessa o pensamento, que a casa mora em mim.

(Manuela Resendes)

Naquela noite

Fui deixando de escutar as diferentes vozes, os silêncios e os ecos.

Fui lendo as emoções nos rostos, as palavras que caíam ao chão e o mundo.

Nessa falsa quietude, abro as portas de todas as lembranças, olhando o céu que apesar de estrelado me pareceu enevoado. Foi tão avassalador que tive de inventar esquecimentos.

Agasalhei o frio da tristeza, com o lenço colorido que em outros dias me alegrou o rosto.

A solidão entrou pela minha janela, donde saíam os ruídos da noite escura, e fui-me afundando na procura das ondas da madrugada, que correm no muro do tempo.

E ao primeiro sobressalto de luz, plantei as sementes que darão as mais belas rosas.

Vou, assim, seguir esse sopro de vida, de onde irei sugar a energia que me permitirá renascer.

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (10)

Partilho com todo o gosto o último dos textos que redigi no âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que apreciem…

Incompletude

E num tempo consumido de forma voraz chegámos à primavera de 2024, sem o apelo concedido aos condenados e o agravo cometido aos penitentes.

Sinto que tudo à minha volta está um pouco diferente, em desalinho, mesmo numa revolução silenciosa que tudo cobre com o seu manto invisível, de tal modo que a estação do ano me parece indecisa e vacilante na sua pujança. Sinto o aroma inebriante das flores, ouço o canto das aves, as hortênsias começam a sorrir, mas, contudo, o sol aparece de forma tímida e o vento carrega até mim nuvens escuras em horizontes nublados.

A angústia invade-me ao ver que os dias nascem já crispados e feitos de metades, numa incompletude que ofusca a magia dos entardeceres suaves. O céu pesado, vergado de recalcamentos acumulados ao longo de invernos solitários, faltando as auroras inspiradoras e luminosas que me seduziam e tingiam de cor todos os meus passos, construindo sucessivos rastos pintados como arco-íris.

Nesta reflexão fui percorrendo o caminho mecanicamente até chegar finalmente ao meu destino, o consultório do doutor Pedro Sousa, que me recebeu de sorriso aberto, aliviando a tensão alimentada por medos antigos, quando as pernas à entrada do dentista pareciam pesar tanto como a quem sobe para um cadafalso.

Hoje a consulta no dentista, outrora muito temida, funcionou como uma terapia pois a ténue dor física aliviou a minha ansiedade, sendo que a luz forte que sobre mim incidiu foi o foco que me permitiu alumiar a visão do futuro.

Esta desconcertante simplicidade da vida, e a sua não linearidade, quando a distância entre o hoje o amanhã pode ser mais longo, enche de plenitude os meus vazios de alma. Despedi-me então do doutor Pedro com um sorriso no rosto e com avidez de ser mais, estar mais e fazer mais.

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (9)

Partilho com muito gosto mais um dos textos que preparei no âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que seja do agrado de todos…

Sem horas

Era uma novidade naquela pequena povoação, encastrada num vale tão fechado que era chamada de aldeia do Poço. Com cerca de 100 habitantes, a sua vivência era marcada pelo ritmo dos ciclos do sol e da lua, que impiedosamente também assinalavam a partida dos jovens para terras distantes.

Certo dia o presidente da junta mandou embutir na torre cimeira da igreja um relógio reluzente, que passou a marcar o ritmo quotidiano dos habitantes, logo divididos entre uma maioria que se conformou com a precisão científica do tempo, que até fazia soar os sinos de manhã à noite, em oposição a alguns poucos anciãos que preferiam o método ancestral que guiava a sucessão das suas tarefas.

Numa manhã em que o nevoeiro parecia querer abraçar para sempre o casario, apareceu morto à porta da igreja o Ti Joaquim, o mais idoso da aldeia e um dos que mais reclamou contra a instalação do relógio. Um dos primeiros que se acercou do homem prostrado foi o sacristão, que ao olhar para o alto verificou que aqueles ponteiros, que antes avançavam inexoravelmente, se mostravam parados, marcando as sete horas da manhã.

Aquela morte pareceu a todos ter desencadeado um pequeno inferno pois toda a harmonia da aldeia foi alterada: deixou de haver pão fresco pela manhã, as crianças esperavam pela professora, ou a professora pelos seus alunos, e o dia de trabalho parecia não ter início ou fim. Tal revolução só acabou com a intervenção de um relojoeiro vindo da cidade mais próxima, e pago a peso de ouro por uma subscrição dos habitantes, que logo descobriu que afinal alguém tinha desapertado uma das rodas dentadas do mecanismo.

Afinal foi o coração do Ti Joaquim que resolutamente parou, não resistindo ao esforço de ter subido a escadaria da torre da igreja naquela madrugada…    

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (8)

Aqui fica mais um dos textos que preparei para a minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que seja do agrado de todos…

Realidade virtual

Decorre o ano de 2100 e neste 3 de julho, dia do meu aniversário, voltei à praia da minha infância, em que em tempos a areia dourada se aninhava numa pequena baía cercada por altos promontórios. Já não estava lá a imensidão dos sedimentos, palco de muitas brincadeiras esculpidas nesse chão, por ter sido engolida pelo mar, como por muitos outros lugares onde as alterações climáticas acabaram por mandar. O mar foi galgando a terra implacavelmente ano após ano, batendo galhardamente nos muros altos que agora lhe servem de fronteira, e hoje só as ferramentas tecnológicas que alimentam o quotidiano dos meus netos, e poderosamente inescrutáveis para mim, nos permitem sentir os pés a enterrarem-se na granularidade textural da areia.  

Sentei-me num dos bancos disponibilizados à população e, após colocar os óculos de realidade virtual disponibilizados aos visitantes, conectei-os com o hipocampo do meu cérebro, logo revivendo a imagem tridimensional daquela praia tal como a memorizei naquele passado longínquo. Nos meus olhos, emergiu a memória do dia em que jogava à bola na areia, com o entusiasmo pueril que só a adolescência nos oferece, quando um cão que por lá vadiava, e se tinha aproximado paulatinamente, lançou-se sobre a bola com impetuosidade, abocanhando-a e dilacerando-a sem hesitação.

Quando a bola ferida deixou o ar escapar explosivamente num estertor paradoxalmente quase orgânico, o cão, nunca percebi se cumulativamente também em resultado dos meus gritos, saltou para o meu colo, tremendo assustado e quase exangue, o que logo aplacou a minha fúria pelo que tinha feito. Naquele momento, estranhamente, gerou-se uma cumplicidade entre ambos, e logo pedi aos meus pais para o adotar. Desde essa altura passou a ser conhecido por King, e foi sempre um companheiro fiel das minhas brincadeiras até ao fim dos seus dias.        

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (7)

No âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa deixo aqui o sétimo texto que escrevi. Espero que gostem…

Traição

O dia chuvoso prenunciava o reviver de velhas memórias que o tempo nunca foi capaz de apagar. Em casa, entediado, revolvi caixas empoeiradas, e de repente deparei-me com uma fotografia que me fez recuar no tempo até à minha infância, e num instante um segredo que sempre fechei a sete chaves inundou o meu pensamento.

Naquele dia, com a cumplicidade do meu irmão mais novo, tinha decidido espreitar para casa de Valéria, mulher que naquela vila suscitava muitos comentários depreciativos. Valéria trabalhava num local de diversão noturna, o único tolerado pela hipocrisia das autoridades, para onde caminhava ao fim da tarde sobre uns saltos que ecoavam na calçada. O seu nome era proferido em voz baixa, o que sempre me fez despertar a curiosidade. Que quereriam dizer epítetos que ia captando – desavergonhada, dissoluta, mulher da vida – em conversas de adultos bruscamente interrompidas quando me aproximava?

Com uma moeda que tinha no bolso sorteámos qual de nós se colocaria de gatas, para que o outro subisse e conseguisse alcançar um orifício na vedação de madeira que limitava o quintal da casa de Valéria. Ainda hoje me lembro como ludibriei o meu irmão, por forma a ser o primeiro a espreitar, sem saber que tal me deixaria para sempre transtornado. Esta pequena traição fraternal, movida pela minha curiosidade, acabou por se transformar numa mentira ainda maior, porque nunca disse ao meu irmão aquilo que realmente pude observar, que se transformou num peso que ainda hoje carrego. Não se consegue ver nada – disse então, com a vergonha que me invadia a queimar-me a língua.

Passados tantos anos, com a fotografia na mão, fechei os olhos, e como então vi o meu pai a entrar na casa de Valéria, que o abraçou à porta, antes desta se fechar encerrando para sempre a minha inocência. 

(Manuela Resendes)